Mulheres que tomaram a vacina contra o HPV (papilomavírus humano) antes dos 17 anos tiveram chances 10% menores de parto prematuro, segundo um estudo com dados de toda a Suécia. A chance de parto prematuro espontâneo, aquele em que o trabalho de parto começa sozinho, foi 11% menor. O trabalho saiu na revista médica BMJ e analisou mais de 624 mil nascimentos.

O parto prematuro é um dos grandes responsáveis pela morte de recém-nascidos, e há poucas formas eficazes de evitá-lo. No grupo vacinado cedo, outros dois problemas também ficaram menos prováveis. A chance de ruptura da bolsa antes do trabalho de parto, numa gestação ainda prematura, foi 14% menor. A chance de um bebê muito pequeno para o tempo de gestação, com peso abaixo do 3º percentil para a idade gestacional e o sexo, foi 9% menor.

Entre as mulheres vacinadas mais tarde, só dois resultados tiveram diferença estatisticamente significativa: bebê muito pequeno, com chance 7% menor, e bebê natimorto, com chance 21% menor. Somando todas as idades, a ligação ficou mais modesta. As vacinadas tiveram chances 5% menores de parto prematuro e de parto prematuro espontâneo, e 15% menores de parto muito prematuro, entre 28 e 32 semanas. Parto extremamente prematuro, natimorto e morte do recém-nascido não chegaram à significância estatística.

Os pesquisadores cruzaram registros nacionais de vacinação com os dados de cada parto. Entraram 624.713 mulheres de 16 a 35 anos que davam à luz pela primeira vez, a um bebê só, na Suécia, entre 2006 e 2023. Quase 15% delas tinham recebido a vacina quadrivalente (que mira quatro tipos do vírus) antes de engravidar. Cada caso foi comparado com até dez mulheres da mesma idade no parto e do mesmo ano de concepção.

A análise também descontou o efeito do fumo, da idade no parto, do índice de massa corporal e da reprodução assistida. Os autores propõem dois caminhos para a ligação. O primeiro é evitar a infecção do colo do útero pelo vírus. Alguns estudos sugerem que a exposição ao HPV afeta o desenvolvimento do embrião, o que talvez contribua para o risco de parto prematuro por meio de uma placenta mal desenvolvida.

O segundo caminho é evitar a cirurgia que retira do colo do útero lesões causadas pelo vírus. O risco de parto prematuro espontâneo é cerca de duas vezes maior em mulheres que passaram por esse tratamento para lesões de alto grau. No estudo, 3,7% das mães não vacinadas tinham diagnóstico dessas lesões antes do parto, contra 0,6% das vacinadas.

Quando os autores levaram esse histórico em conta, a ligação da vacina com parto prematuro, parto prematuro espontâneo e ruptura precoce da bolsa encolheu e se aproximou de zero. Eles tratam essa conta como exploratória, porque um diagnóstico não prova que houve tratamento. E o estudo não conseguiu dizer qual dos dois caminhos explica os números.

O resultado combina com dois estudos anteriores da Finlândia, que tinham poucas gestações. Um estudo da Dinamarca achou menor risco de parto prematuro espontâneo só entre as vacinadas antes dos 17 anos. Na Escócia, um estudo não encontrou ligação entre a vacina e o parto prematuro. Na Austrália, grupos de mães com 60% a 80% de cobertura vacinal tiveram 3,2% menos partos prematuros, sem prova de efeito em cada mulher.

O próprio estudo sueco tem limites. Por ser observacional, outros fatores podem ter ficado fora da conta, como diferenças de comportamento sexual e de cuidado com a saúde. Parte das mulheres pode ter tomado a vacina depois de já estar infectada. Abortos espontâneos antes de 22 semanas não entraram nos registros, nem a infecção ou o tratamento do colo depois da vacina. Para natimorto e morte do recém-nascido, casos raros, faltou volume para conclusões firmes.

Para os autores, os resultados sugerem que a vacina, além de segura para a gravidez, pode trazer benefícios extras ao reduzir complicações, e eles citam isso como apoio à vacinação de rotina. O próximo passo apontado é acompanhar por muitos anos os grupos vacinados, com a gravidez e o parto monitorados, para medir o tamanho do efeito e esclarecer o mecanismo.