No oeste do Acre, perto de Cruzeiro do Sul, tem floresta que passa parte do ano debaixo d'água. Foi em fragmentos dessa mata, perto dos rios Moa e Crôa, na região do Alto Juruá, que pesquisadores acharam uma espécie de rã que ainda não tinha sido descrita pela ciência. Ela ganhou o nome de Adenomera varcena, e o estudo saiu em 2026 na revista científica Ichthyology & Herpetology.

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O detalhe é que, por fora, ela é quase idêntica às parentes. É o que os biólogos chamam de diversidade críptica: bichos que parecem iguais, mas pertencem a espécies diferentes. Pra separar uma da outra, não bastou olhar. A equipe juntou várias pistas:

  • o DNA, que distingue a espécie das parentes quase idênticas;
  • o canto de acasalamento: um som curto, num ritmo lento, com outras características acústicas próprias;
  • o formato do corpo, comparado com exemplares guardados em coleções científicas;
  • um detalhe visível: ela não tem a mancha escura na parte de baixo do antebraço;
  • o ambiente onde vive, que também entrou na conta.

Um endereço novo pro gênero

O nome não é à toa: varcena faz referência às florestas de várzea da Amazônia, ecossistemas que ficam submersos em parte do ano. E aí tá a segunda novidade. As rãs do gênero Adenomera costumam ser associadas a florestas de terra firme, não a mata que alaga. Segundo o estudo, a descoberta revela uma relação com esse tipo de ambiente que não era conhecida pro gênero. O artigo apresenta a espécie como uma rã terrestre que faz ninho de espuma -- e que foi morar justamente onde a água sobe.

Corrida contra o relógio

O estudo reúne pesquisadores da Unesp, da UFMG, da USP, da UFU e da PUCE, em Quito, no Equador. Dois deles, Célio F. B. Haddad, da Unesp, e Thiago R. Carvalho, da UFMG, fazem parte do CBioClima, centro de pesquisa sobre biodiversidade e mudanças climáticas financiado pela Fapesp.

E a ficha da rã ainda tem muito espaço em branco. Segundo Carvalho, como ainda não se conhece em detalhe do que a espécie precisa pra viver nem a história natural dela, fica difícil prever o impacto da mudança climática. E isso importa porque o clima pode alterar o ritmo das cheias da várzea, o que pode mexer com a reprodução da espécie.

Haddad vai além. Pra ele, hoje os ecossistemas estão sendo destruídos mais rápido do que os estudos de taxonomia, a área que descreve e classifica espécies, conseguem acompanhar. Se a perda de habitat acelerar, uma espécie pode desaparecer de um lugar antes mesmo de ser reconhecida oficialmente. E espécie que ainda não foi descrita pode ficar de fora das listas de fauna ameaçada. Por isso, segundo ele, descrever uma espécie nova também é uma ferramenta pra ajudar a protegê-la.

A Adenomera varcena entra nessa conta como mais uma evidência de que a biodiversidade da Amazônia é ainda mais rica do que parece. E ela não está sozinha: segundo os pesquisadores, várias linhagens de Adenomera ainda nem foram descritas formalmente.